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segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Homem quase feito

Se tu tivesse tido bom tempo, se tu tivesse tido paciência e me esperado, nada estaria assim, de cabeça pra baixo... Se o domingo é chato, se a segunda é sem cerveja, a culpa é tua que não me quis de outro jeito. Eu era tão abestalhado, mesmo com quase 20 eu era mais criança que tua sobrinha pequena! Hoje eu to mais velho, com cheiro de loção pós-barba, não uso mais a velha calça desbotada e os óculos já não me servem mais porque o grau aumentou. Não sei se estou melhor, pior ou igual. Talvez se tu tivesse sido madura o suficiente, se tivesse me moldado um pouco mais, as bobagens que eu falava naquela época poderiam ser comparadas com as que falo atualmente, ai todos os meus eu e tu que eu escrevia nos guardanapos e que te dava, iam saber se eu to melhor, se pior ou se continuo boiando na vida. Tu não quis. Preferiu alguém pronto. Tipo aqueles macarrões instantâneos ou aquelas lasanhas que tu fazia pra eu almoçar na semana. Essa gente que tu conversa três minutos ou dez, e já sabe se tá pronto o suficiente pra viver a vida que tu quer. Tu ficou bonita, mais mulher. Acho que eu fiquei mais chato e só. Leio mais, componho musica pra falar de ti, diminui o cigarro, quase parei com a bebida e mal vou a noitadas. Tu lembra quando a gente dançava até cair? Tu também era uma criança! Ria que dava dor nas costelas! A história ficou embaçada quando eu resolvi dar uma de Dom Juan e rodopiar por ai. Tu chorou que nem bebê com fome... Eu chorei também. Às vezes fico pensando que aquele tempo só foi bom porque foi naquele tempo. Se fosse hoje, tu com tantas obrigações e eu tão sem tempo, a gente não teria tido hora pra gastar com beijo no sofá, com filme de amor, com tarde no bar. Se nessa segunda eu me sinto velho, homem quase feito, barbado e cansado, a culpa é tua. Tu me fez crescer na dor de ter te perdido. Eu me vi obrigado a mudar! Mudar a força, mudar quebrado, mudar doído, mudar.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

pessoas

Pessoas são consequências de outras pessoas. Pessoas são consequências do que as cerca. Pessoas são consequências. Inclusive uma consequência sua.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

As avessas

Quem é você? De onde vem? Pra onde vai? Vai? Vem? Já foi. Fui. Hoje somos o que nunca fomos e se fomos não mais seremos. Ora que bobagem, se somos colcha de retalhos, que mal há em lembrar? Ainda há de existir ontem pra gastar. Quem nunca riu do ontem? Quem nunca chorou pelo que não foi ontem? Que foi você? De onde veio? Pra onde foi? Foi? Vai? Indo. O tempo de amanhã nem a Deus pertence. E se amanhã for o sétimo dia? E se, meu caro. E se. Mas isso não interessa. Ontem, hoje, amanhã... São apenas medidas usadas para definir, consecutivamente, arrependimento, vinte e quatro horas e talvez. Ontem me arrependi por ter jantado tarde demais. Tive insonia. Hoje tenho vinte e quatro pra dividir em partes iguais, sem decepcionar um minuto sequer. Amanhã, talvez dê tempo de comer aquele macarrão com atum que eu venho desejando desde segunda. Mas talvez. Quem será você? Para onde irá? Irá? Chegará? Se foi, se comeu, se chorará, se parte, se comeu, se beijará, se anda, se faltou, se bebe, se levará, se fumou, se perde, se sentirá. Se será.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Metade do não acontecido.

Os dentes brancos por trás do sorriso bonito paralisaram minhas carnes. A pele riscada pelo meu desejo, o olho preso aos gestos. O cheiro viciante, a voz arrogante, o cabelo mesclado. O tempo apressado, o passo contado, o abraço não dado. O desejo do gosto, o medo do gozo, o tapa no braço - acorda!. O gole no copo, o anel no dedo, o caderno, o livro. A história mal contada, a piada falha, o breve ensaio. A língua encharcada, a meia garrafa, o copo vazio. O corpo latente, a face em rubi, o ferver do sem ter.

sábado, 18 de agosto de 2012

O copo sujo de batom ainda está na prateleira. Eu sei, já devia tê-lo tirado de lá... Mas todo santo dia eu o olho e me dá uma pena, sabe. Eu sei que o copo está vazio, porém é só pro cego que não quer ver. O copo está vazio pra um leigo, pra uma visita chata no fim de tarde de sábado. Pra mim não. Eu me afogo naquela marca de batom, me afogo nas paredes finas de vidro, me afogo nas digitais, me afogo nas lembranças. E vai ficar lá. Deixa o copo lá que hoje e amanhã eu quero ficar olhando pra ele. Melhor que a TV, melhor que o rádio, melhor que qualquer janela aberta. O copo está, aparentemente sujo. Poeira, batom, mancha de dedo. Um leigo vê isso, uma visita inconveniente num fim de tarde de domingo chato também. Eu vejo um copo limpo, tão transparente quanto água de nascente! Boas e puras lembranças de uma noite de quarta que insiste em durar até hoje. Acho que são as memórias que limpam o copo todas as manhãs, antes mesmo que eu acorde. E eu fico na sala. Pra cada folha do livro, lanço um olhar nostálgico e pronto... O batom no copo fala comigo, as digitais me tocam. Podia ser um copo na prateleira esquecido pelo desleixo, esquecido pela falta de tempo, podia ser tudo o que você conseguir imaginar. E é.