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domingo, 6 de agosto de 2017

Domingo aos montes.

Mal levantei da cama. O dia todo dividido entre o pensar e o dormir. Dormi pra não pensar, acho que foi isso. Dormi de tanto pensar na esperança de acordar e não ter mais que dividir você. Talvez só dormi. Talvez só pensei. Esqueci das horas por horas e duas ou três palavras saíram da minha boca o dia todo. Aos domingos eu prefiro escutar. É como se falar desse forma ao pensamento, como se a língua esculpisse uma paranóia sobre meus travesseiros. Domingo aos montes. Domingo sendo domingo, eu sendo domingo, música e silêncio sendo domingo. Agonia em câmera lenta. Coisas miúdas reverberando a todo instante. Eu sei das coisas que quero, muito mais das que não quero e penso, mesmo de querer, que não adianta pensar. O furo cinlíndrico na coxa esquerda é consequência da broca do pensamento. Quase acerta uma veia importante, as paredes sabem. E se morro de pensar? Me disseram que os dois lençóis freáticos mais importantes do mundo ficam guardados num espaço minúsculo entre as pálpebras inferiores e as maçãs do rosto. Temos que poupa-los para emergências. Domingos são emergências. Se penso e não durmo, seco os lençóis pra regar outros lençóis.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Play som

Das muitas saudades, a que sinto por você é única. É um tipo específico de saudade que vai muito além do sentir. É uma presença física que anda do meu lado, que deita comigo, que me vê tomar banho todos os dias as sete da manhã. Uma saudade pesada, amarga, silenciosa, viva. Como a pele riscada que guarda a falta grita "I'm alive and vivo muito vivo". Vivo.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Peixe

Passo minha língua por entre seus lábios finos e a sensação é de já ter estado ali antes. Não sei, não foi único, mas sem dúvida me senti inteiro. Eu estava ali, você estava ali. Sua cintura fina na palma da minha mão, seu cheiro em mim. Alguma coisa fez muita coisa parar. Foi ali mesmo na calçada, sem a menor cerimônia, sem jeito, sem volta. E tontos e alterados, tremulos e cheios de coragem. Um beijo, um cuidado, um abraço. Trouxe o cheiro na camisa, o resto de batom na boca, seu nome repetidas vezes em mim. Não preciso mais esperar.

sábado, 1 de julho de 2017

Sexta mensagem não enviada.

A gente foi feito pra acabar, pra não durar, não dar certo. Acho que vou ter cem anos e não vou me conformar com isso, em ter que passar por isso de novo. Agora dói mais do que em 2011... e olha que eu nem superei ainda a primeira vez, quase sete anos depois e o nó na garganta aperta, maltrata. Vão ser precisos quantos anos até que isso passe? E se não passar nunca? E se eu esperar, mesmo que involuntariamente por você que nunca vem?

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Estamos falando de um futuro retrógrado, onde o mundo virtual arruinou quatro dos cinco sentidos.

Recentemente descobri que você era apenas um holograma e que tudo não passou de um invento sensorial espetacular da tecnologia moderna. Sua voz computadorizada, seus olhos de reconhecimento facial. Eu tocava seu corpo, mas o que sentia era tão somente memórias programadas de uma pele, de um cheiro, de um sorriso. Memorias minhas, sensações minhas, sentimentos meus.