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terça-feira, 20 de abril de 2021
há todo um caos espalhado por aqui. hoje mais cedo achei que conseguiria, não antes do café, mas depois, mais esperto e verdadeiramente acordado, eu conseguiria. mas há muito caos espalhado por aqui. e está impossível andar sem tropeçar ou ter que desviar de um ou dois cacos pelo chão. ainda restava alguma coisa inexplicável, um fino fio prateado, sei lá se podia dizer, chamar de esperança. estava alí. eu via. e eu achei que conseguiria, que ao longo do dia, o calor, os afazeres, os telefonemas, os emails, isso tudo se encarregaria do caos. mas ainda há muito por aqui. um caos aos prantos que talvez amanhã eu consiga lidar.
deito-me inquieto como um jogador de futebol a correr todo o campo atrás da bola e a cama de solteiro se torna gigantesca noite após noite. sento-me aflito como o salva-vidas olhando fixamente a vítima do acidente após usar o desfibrilador e a cadeira não se sustenta movimento após movimento. os dias e as noites dentro dos dias após dias rasgando calendários mês a mês.
para que me servirão as dunas
para que me servirão as roseiras
para que me servirão as tardes ensolaradas e as manhãs de chuva
para que me servirão as músicas, os filmes, as danças
para que me servirão
de que me servirão
a quem direi o que ainda sei falar
a quem darei o que ainda sei fazer de melhor
ao que se destinará esses restos
mortais gestos
imortais restos
para que servirá ainda o viver