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quinta-feira, 6 de abril de 2017
Se você não sentir, tudo bem, é normal também.
Eu tenho fumado tanto esses dias, muito mais do que consigo, do que eu me disponho. É como se todo cigarro fosse uma fuga, uma despedida, um carro a 100km/h na contramão.
quarta-feira, 5 de abril de 2017
Cápsulas de memória
Por quanto tempo ainda vamos ser capazes de nos sustentar? Eu queria que você soubesse o que não sou capaz de explicar. É como se tocar a felicidade com a ponta dos dedos fosse suficiente pra sentir que nada é tão inalcançável assim. De repente as luzes de led viram estrelas e os carros cometas e tudo se remonta num céu de asfalto. Quando você vai enjoar de mim? Minha camisa com seu cheiro, minha boca com seu beijo. Essas coisas não podem se perder de novo e por favor, não deixe que isso aconteça. Quando a gente é novo tudo parece um comprimido de êxtase. E a vida vai mudando, se moldando até que tudo se encaixe e pareça confortável o suficiente pra que a gente só deseje uma tempestade pra tirar tudo do lugar.
terça-feira, 28 de março de 2017
Lavada.
Matei minha tia. A tia que fumava desde os onze, que não tinha marido e filhos, que morava sozinha numa casa linda em Quixadá. Dei uma tosse insistente seguida de insuficiência respiratória. Diagnostiquei-a com um câncer de pulmão letal, urgente. Mas ofereci um enterro digno. Familiares, amigos, condolências e um pôr do sol ao fundo. A tia estava pálida, apenas pálida. Não tive coragem de me aproximar do caixão escuro. Nunca gostei de velórios e enterros, fui em respeito a memória da grande mulher bondosa, que me acolheu na infância, que nunca existiu e cujo o grande feito da vida foi ser uma desculpa esfarrapada, porém muito convincente, para que eu pudesse faltar um dia todo de trabalho. Quem se preocupa com a tia fumante? Quem liga paras as milhares de substâncias cancerígenas nos cigarros? Quem vai ficar com a casa e todos os pertences da tia falecida? Quantas horas dura uma viagem de Fortaleza à Quixadá? Quantos tios e tias ainda me restam? Quantas pás de terra foram necessárias pra cobrir toda a cova? Tia Irene, a vida é mesmo um sopro.
segunda-feira, 27 de março de 2017
Prazo de validade.
Eu vou perder você. Eu sei, você sabe, insistimos mesmo assim. Vai chegar o dia, mais um dia, em que restará apenas o canto vazio e a conformação.
quinta-feira, 9 de março de 2017
Se Eva soubesse.
Há 6 anos atrás Eva abandonava o lar.
Deixou tudo para trás, foi-se apenas com a roupa do corpo. Até hoje me indago como Eva foi capaz. Mulher feita, independente, experiente acima de tudo. Quando paro, entre um cigarro e outro, me pergunto por quanto tempo certas feridas permanecem abertas. Eva, antes de ir, sabia que não seria fácil estancar, fechar, sarar. São processos e cada etapa tem que ser sentida. Mas por qual motivo? Quem ensinou Eva a ser assim? Me vejo aqui, deitado na cama, com os olhos pregados no teto, ouvindo o disco estalar "i'm building memories on things we have not said" na velha radiola Philips.
6 anos depois e ainda é Eva.
Deixou tudo para trás, foi-se apenas com a roupa do corpo. Até hoje me indago como Eva foi capaz. Mulher feita, independente, experiente acima de tudo. Quando paro, entre um cigarro e outro, me pergunto por quanto tempo certas feridas permanecem abertas. Eva, antes de ir, sabia que não seria fácil estancar, fechar, sarar. São processos e cada etapa tem que ser sentida. Mas por qual motivo? Quem ensinou Eva a ser assim? Me vejo aqui, deitado na cama, com os olhos pregados no teto, ouvindo o disco estalar "i'm building memories on things we have not said" na velha radiola Philips.
6 anos depois e ainda é Eva.
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